DÉBORA MARINHO

Universo Multifocal

Escritor, professor e advogado, Ariano Suassuna (1927–2014) prestou grande contribuição à literatura brasileira principalmente no que diz respeito à universalização da cultura nordestina. 

Suassuna nasceu na Paraíba e passou grande parte de sua vida em Pernambuco conservando em sua obra um olhar ao mesmo tempo crítico e lírico sobre a realidade dessa região. Soube abordar temas peculiares com maestria criativa e crítica. O Auto da Compadecida, talvez seu trabalho mais conhecido, foi adaptado para o cinema e televisão e considerado por Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”.


O assassinato de seu pai, João Suassuna, em 1930 causou impacto mais tarde em sua obra pela tentativa de resgate das histórias e lembranças de quem o conheceu. As relações, os costumes e a linguagem regional mesclados à memória de uma geração e permeados de humor produziram um olhar saudoso e reverencial do que, indubitavelmente foi a zona de compartilhamento com a figura paterna. Lucramos nós, leitores, com a beleza e a honestidade de seus textos.
Não trago hoje o Suassuna cômico e ácido dos textos teatrais, mas o poeta apaixonado e inconformado. De seus poemas, selecionei Noturno, pelo lirismo e a linguagem metafórica ligada à natureza e à essência da existência fundamentada no amor.

 

Têm para mim Chamados de outro mundo
as Noites perigosas e queimadas,
quando a Lua aparece mais vermelha
São turvos sonhos, Mágoas proibidas,
são Ouropéis antigos e fantasmas
que, nesse Mundo vivo e mais ardente
consumam tudo o que desejo Aqui.
Será que mais Alguém vê e escuta?
Sinto o roçar das asas Amarelas
e escuto essas Canções encantatórias
que tento, em vão, de mim desapossar.

 

Diluídos na velha Luz da lua,

a Quem dirigem seus terríveis cantos?
Pressinto um murmuroso esvoejar:
passaram-me por cima da cabeça
e, como um Halo escuso, te envolveram.
Eis-te no fogo, como um Fruto ardente,
a ventania me agitando em torno
esse cheiro que sai de teus cabelos.
Que vale a natureza sem teus Olhos,
ó Aquela por quem meu Sangue pulsa?
Da terra sai um cheiro bom de vida
e nossos pés a Ela estão ligados.
Deixa que teu cabelo, solto ao vento,
abrase fundamente as minhas mão...
Mas, não: a luz Escura inda te envolve,
o vento encrespa as Águas dos dois rios
e continua a ronda, o Som do fogo.
Ó meu amor, por que te ligo à Morte?

 

Dos temas universais dos quais o poema trata, a saudade fica impregnada nas lembranças que encontram-se por toda a parte. A natureza nos faz lembrar que onde há vida, há morte e que os desejos podem transcender o tempo. Para encerrar, deixo aqui meu Capítulo 76, que trata dos mesmos temas.

 

No último instante
você me deu algo
um suspiro, um olhar
que me fez ficar
preso a sonhar
na solidão do querer
a cada instante
voltar.

As palavras dançam;
os desejos inflam
na ínfima certeza