DÉBORA MARINHO

Universo Multifocal

Antônio Emílio Leite Couto, conhecido como Mia Couto, nasceu em Moçambique em 5 de julho de 1955 e lançou seu olhar sobre as peculiaridades de sua gente.  Hoje escritor e biólogo trabalha a terra em seus textos e em suas práticas ambientalistas. 

A intuição e o surrealismo estão presentes em seus textos, que trabalha a descrição de uma realidade fantástica a partir das crenças e práticas da cultura africana. Utiliza-se de linguagem onírica, talvez para tornar mais leve a dura realidade do povo de seu país natal.

Com isso consegue transpor sonhos para o mundo real.  Revela a natureza humana pelas raízes do mundo, universalizando em palavras inventadas os sentimentos do mundo.
Os conflitos de uma terra em guerra completam o cenário de seus romances, nos quais a tristeza e a violência ganham uma dimensão lírica, como podemos ver em um trecho de “Mulheres de Cinzas”:

 

“Os imperadores têm fome de terra e os seus soldados são bocas devorando nações.  Aquela bota quebrou o Sol em mil estilhaços.  E o dia ficou escuro.  Os restantes dias também.  Os sete sóis morriam debaixo das botas dos militares.  A nossa terra estava a ser abocanhada.  Sem estrelas para alimentar os nossos sonhos, nós aprendíamos a ser pobres.  E nos perdíamos da eternidade.  Sabendo que a eternidade é apenas o outro nome da Vida.”

 

Enquanto poeta, Mia Couto parece também usar de uma leveza natural em contraposição aos conflitos internos e externos de um eu lírico inserido em uma realidade ao mesmo tempo única e plural.  É o individual transposto para o coletivo, para o universal permeados de elementos da natureza, como no poema “Para ti”:

 

“Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre
Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos

eu descia em teu peito
para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida”

 

Comparado a Gabriel Garcia Márquez e Guimarães Rosa, Mia Couto é autor premiado, traduzido em vários idiomas, e carrega a importância de ser o representante máximo da literatura moçambicana.  Seus textos, mesmo em língua portuguesa, trazem muito da cultura, da tradição e do sentimento de Moçambique e da África.

 

Capítulo 74


São meus teus cabelos ao vento
Que me trazem o alento das coisas distantes.
São minhas tuas noites encantadas 
Que me fazem sonhar por detrás do sofrer.
São minhas tuas cantigas entoadas
Batidas nos sons de minh'alma cansada.
Sou teu enquanto vivermos
E mesmo após o tempo de corpo e de sangue.
É minha tua jornada pelos cantos do mundo
Pelo ódio e pelo amor.