DÉBORA MARINHO

Universo Multifocal

Um dos mais proeminentes escritores brasileiros, o baiano Jorge Amado nasceu em Itabuna no ano de 1912 e morreu em 2001, aos 88 anos.  Membro da Academia Brasileira de Letras, Amado foi, além de escritor, jornalista e político. Sua obra ficou conhecida no mundo inteiro, tendo sido traduzida em diversas línguas e publicada em muitos países. Também teve vários de seus romances adaptados para o teatro, televisão e cinema como Gabriela, Cravo e Canela, Tieta do Agreste e Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Considerado modernista de segunda geração pela expressão regionalista em seus romances, Jorge Amado revelou ainda em seus primeiros escritos o caráter político e social de Capitães da Areia e O País do Carnaval. Em 1938 chegou a publicar um livro de poesias entitulado A estrada do Mar, mas a prosa compõe quase que a totalidade de sua obra. Ainda assim, é possível viajar nos versos que se colocam em meio à narrativa dos acontecimentos ou na descrição de personagens e paisagens absolutamente brasileiras e, ao mesmo tempo, universais.  Sua prosa poética pode ser exemplificada nesse trecho de Mar morto.

 

“Lívia olha de sua janela
o mar morto sem Lua.
Aponta a Madrugada.
Os homens,
que rondavam a sua porta,
o seu corpo sem dono,
voltaram para as suas casas.
Agora tudo é mistério.
A música acabou.
Aos poucos as coisas se animam,
os cenários se movem,
os homens se alegram.
A madrugada rompe
sobre o mar morto.”


Deixa-nos assim, Jorge Amado, um legado de regionalidade lírica, permeado de uma simbologia e de uma riqueza religiosa defendida inclusive perante à lei por ocasião de sua prática política.  Amado – quantos podem ser chamados assim na própria certidão de nascimento? - nos ensina o amor à nossa terra, à nossa gente, à nossa cultura e às nossas raízes exaltando o que esse país tem de melhor.

 

Desses instantes capturados do real e universalizados na dor sublime e na esperança de dias melhores, Jorge Amado nos acaricia com os desejos do ser humano.  Pensando nisso, encerro aqui com uma dedicatória (meu Capítulo 76) a esse grande artista, cantador de almas e encantador de corações. Salve Jorge Amado!

 

No último instante
você me deu algo
um suspiro, um olhar
que me fez ficar

preso a sonhar
na solidão do querer
a cada instante
voltar.

As palavras dançam;
os desejos inflam
na ínfima certeza 
da tua beleza,
na dúvida constante
do teu semblante
no último instante.

Sem dar conta
do medo
saio em segredo
colhendo migalhas
no chão que me falta.
Me destes um instante;
ganhei eternidade.