DÉBORA MARINHO

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Universo Multifocal

​A Literatura, como as artes em geral, possibilita uma multifocalidade do real mostrando ou modificando nossa visão do mundo e de tudo que nele acontece. Permitamo-nos tocar a realidade imprimindo nela nossa visão individual marcada pelo toque coletivo já interiorizado e, portanto, já transformado. Vamos poder, nesse espaço, refletir e apreciar as palavras, ampliando e multifacetando nosso olhar sobre o mundo!

 

Comecemos pelo magnífico olhar de Pablo Neruda, o Poeta do Amor. Neruda amou as mulheres, amou a natureza, amou o povo do Chile, amou seu país. Sua poesia cantou a mulher amada, mas também fez-se voz dos povos oprimidos em tantos países e descreveu os sentimentos de tantas pessoas... Versou seus amores com paixão única e, ao mesmo tempo, universal expressando o sentimento individual e coletivo da humanidade. Conta em suas memórias, Confesso que vivi (1974), que foi levado de surpresa a fazer uma palestra para trabalhadores no sindicato de carregadores da Vega Central, mercado popular de Santiago do Chile. Improvisando sua fala, Neruda tirou do bolso seu livro Espanha no coração pensando em dizer ali alguns versos e finalizar a apresentação. Leu-o por mais de uma hora sob um silencio absoluto. Ao terminar, recebeu o agradecimento das pessoas simples que o escutaram com emoção. O sentimento expresso na poesia de Neruda passou a ser o sentimento de todos, mesmo tendo o livro sido escrito para uma outra realidade. Ao falar de Amor, Neruda materializou o sentimento coletivo. Como quando, no soneto LXIX de Cem Sonetos de Amor (1959), expressa como o amor modifica a percepção do mundo ao redor e dá maleabilidade aos limites impostos pelo outro.

Talvez não ser é ser sem que tu sejas,

sem que vás cortando o meio-dia

como uma flor azul, sem que caminhes

mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

 

sem essa luz que levas na mão

que talvez outros não verão dourada,

que talvez ninguém soube que crescia

como a origem rubra da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses

brusca, incitante, conhecer minha vida, aragem de roseira, trigo do vento,

 

e desde então sou porque tu és,

e desde então és, sou e somos

e por amor serei, serás, seremos.

Não há uma só verdade, mas a realidade depende do olhar que você pode lançar sobre ela. Digo “pode” porque não é escolha. No olhar de cada indivíduo já estão impressas as marcas do que ele viveu. No poema a seguir, Capítulo 66 de Simplesmente Poemas, abordo essa temática. A necessidade da unificação de múltiplas visões pode estar relacionada à necessidade da simplificação para facilitar a segregação.

 

Segue o poema.

Multifocar o real.

O que é paradoxal

Está multifocado

Em seu significado.

O real é facetado;

O invisível, irreal

E desfocado

No foco doentio

Do unifacetário

Sem multiplicidade:]

Estigma estruturado,

Preconceito realizado.