DÉBORA MARINHO

Fernando-Pessoa
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Universo Multifocal

​Fernando Pessoa, escritor português (Lisboa, 1888 - 1935), diversificou em muito seu olhar sobre o mundo e explicitou essa multiplicidade na criação de heterônimos aos quais imprimiu visões diferentes, estilos de composição literária próprios. Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro, entre outros personagens ou personalidades múltiplas do próprio Pessoa, deixaram obras diversas, compondo um todo por partes individuais. Todos, no entanto, eram Pessoa: partes do mesmo ser, com estilos próprios e diferentes impressões sobre a vida.

 

Mesmo com tantos outros em si, Fernando Pessoa conservou-se ortônimo em obras como Mensagem, livro publicado um ano antes de sua morte. Nessa obra, Pessoa nos leva a viajar pela história de Portugal e ainda nos fala do mar, tão presente na vida do povo português. Revela as tantas visões do mar. O mar como caminho, como saída. O mar para banhar-se e purificar-se. “Navegar é preciso”, mesmo que cause muita dor para quem vai e para quem fica. Visões no mínimo bilaterais de lançar-se ao desconhecido, em aventura e sacrifício. Em Mar Português diz:

Ó mar salgado, quanto de teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?

Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

O mar e seus atributos estão presentes na vida concreta e no imaginário de diversas culturas. Em muitas provoca uma mistura entre atração e medo. Nos fascina, encanta e ao mesmo tempo nos invoca respeito. É maravilhoso admirar o mar e mesmo o horizonte já não parece um fim. Acalma, intriga, inspira. Assim, em resposta a publicações de uma amiga, escrevi esse poema, lembrando-me de Fernando Pessoa, usando o mar como metáfora e refletindo sobre as tantas viagens que fazemos na vida.

Capítulo 62

 

Percorridas as metáforas

Tomo-te a sério, irmã.

Fica da tua essência

O cheiro da verdade.

Pega o leme, ergue a vela!

Corre o imenso mar azul

Em busca do beijo eterno;

Só saudades tens de lastro.

Dona da sensibilidade,

Marcada pelo desejo

Pela vida afora...

Terra à vista, vida a prumo!

Vento em popa, segues

Incendiando de paixão

As rotas percorridas

No imprevisível sonho-mar.